Quem foi Paula Souza e qual foi sua importância na história do Brasil?
Antônio Francisco de Paula Souza foi um engenheiro, político e educador que desempenhou importante papel na implantação do regime republicano no Brasil, no processo de modernização da educação e na condução do Estado de São Paulo no caminho do progresso em Ciência e Tecnologia.
Em que período histórico viveu Paula Souza?
Paula Souza nasceu em Itu em 1843 e morreu em São Paulo em 1917. Portanto, parte da sua juventude transcorreu nos tempos do império, em Itu, Capivari e Campinas, onde o seu pai era médico. Depois foi estudar em São Paulo e em Petrópolis.
Pertencente a uma família da elite cafeeira paulista, desde criança vivenciou os debates políticos do seu tempo. Ele era neto de Francisco de Paula Souza e Mello, um dos membros do chamado “grupo ituano”, que teve atuação significativa no processo da emancipação política do País, foi membro das Cortes de Lisboa em 1821, membro da Assembleia Constituinte em 1823, membro do Conselho de Estado, senador e ministro do Império. Seu pai, Antônio Francisco de Paula Souza (seu homônimo), era médico formado na Bélgica, foi deputado provincial e geral e ministro da Agricultura do Império.
Aos, 15 anos Paula Souza foi estudar na Alemanha.
Depois foi estudar engenharia na Universidade de Zurique, Suíça. No final de 1863 ele escreveu ao pai pedindo a autorização paterna para estudar agricultura. Dizia que não tinha talento para “as matemáticas” e contava que não poderia voltar a estudar na Escola Politécnica de Zurique “por causa dos mestres”, que se indispuseram com colegas seus. Por insistência do pai, ele foi estudar engenharia na cidade de Karlsruhe, na Alemanha, onde recebeu o diploma de engenheiro. Ele viveu na Europa em um período conturbado, repleto de conflitos que levariam à unificação da Alemanha. Mas também em um período de desenvolvimento, de expansão das siderurgias e das ferrovias. Ele mesmo trabalhou na construção da ferrovia Nord-Ost-Bahn.
A sua correspondência com o pai revela um estudante preocupado com o desenvolvimento da sua terra natal. Apontava a escravidão como um entrave ao desenvolvimento, analisava a necessidade do desenvolvimento da instrução primaria e do desenvolvimento de um sistema de vias de comunicação e principalmente questões relativas à superação do regime monárquico.
Depois de uma passagem pelos Estados Unidos, ele volta ao Brasil e atua na expansão da Estrada de Ferro Ituana. Foi um dos líderes do movimento republicano e membro do Clube Republicano de Itu. Ao lado de Jose Vasconcelos de Almeida Prado e Joao Tibiriçá Piratininga, trabalhou intensamente pela realização da Convenção de Itu, em 1873, da qual foi um dos mesários. Nessa época, colaborou com o médico Cesário Nazianzeno de Azevedo Motta Magalhães e com o seu filho, Cesário Motta Junior, na criação de escolas primarias na região.
Paula Souza fez curso de especialização em ferrovias na Franca, trabalhou como engenheiro na ferrovia que ligava Rio Claro a São Carlos e retornou a Itu, para assumir o posto de inspetor geral da Estrada de Ferro Ituana. Na sua cidade natal permaneceu até a Proclamação da República. Como republicano histórico, foi eleito deputado estadual pelo PRP. Foi presidente da Câmara dos Deputados do Estado de São Paulo, ministro das Relações Exteriores e ministro da Agricultura no Governo de Floriano Peixoto. Abandonou os cargos administrativos para dedicar-se à criação da Escola Politécnica, cujo projeto desenvolvera durante o seu mandato de deputado estadual.
Como Paula Souza contribuiu para o desenvolvimento da educação no estado de São Paulo?
O projeto de Paula Souza era produzir uma tecnologia própria, de forma a tornar o Brasil independente de importações de produções externas, de formar engenheiros habilitados a realizar empreendimentos, particularmente desenvolvendo o seu sistema de vias de comunicação, como as estradas de ferro. Formado na Alemanha, sua visão de tecnologia e de ensino estava impregnada pelo ideário germânico. Finalmente, a 15 de fevereiro de 1894 inaugurou-se a sua tão sonhada Escola de Engenharia de São Paulo. O curso começou com 31 alunos matriculados e 28 ouvintes, em um prédio no bairro do Bom Retiro, onde a Escola Politécnica permaneceu até 1924. No discurso que pronunciou na inauguração, Paula Souza definiu as linhas de sua contribuição ao desenvolvimento da educação no Estado de São Paulo, e por consequência, no Brasil: o projeto de transformação nacional por meio do ensino científico, que embasaria a industrialização em direção ao necessário progresso brasileiro, para o histórico atraso do País.
Em 1899, Paula Souza introduziu cursos práticos de Estabilidade e Resistência dos Materiais, cujas aulas eram ministradas em um anexo do edifício principal. Esse Gabinete de Resistência dos Materiais (GRM), anexo à Escola Politécnica, precursor do ensino científico e empenhado em traduzir conhecimentos teóricos em experiências práticas, é considerado o embrião do famoso IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), hoje um dos maiores institutos de pesquisa da América Latina, que há mais de cem anos participa do processo de desenvolvimento do País.
É muito importante lembrar que a Escola Politécnica de São Paulo teve papel significativo na construção de ferrovias ao introduzir análises topográficas e de engenharia mecânica, analises e estudos que também tiveram papel importante na urbanização e remodelação da cidade
Quais foram os desafios enfrentados por Paula Souza em sua carreira e como ele os superou?
Creio que o primeiro desafio foi decidir pela formação em engenharia. Em 1863, em carta ao pai (hoje pertencente ao acervo de Obras Raras da Biblioteca Mario de Andrade), ele manifestou o desejo de estudar Agricultura, alegando falta de talento para “as matemáticas”. Outra justificativa era a economia de gastos, já que o curso de Agricultura demandaria menos gastos. Mas, a indecisão foi superada e ele formou-se engenheiro. Outro desafio, foi a forte oposição do engenheiro e escritor Euclides da Cunham favorável ao ideário francês de educação. Formado na Alemanha, Paula Souza defendia o ideário germânico na definição do projeto de ensino de engenharia em São Paulo. Ele superou esse desafio e criou a Escola Politécnica de São Paulo. O diploma conferido pela Escola Politécnica era reconhecido somente no Estado de São Paulo. Graças a sua articulação com os dirigentes republicanos, em 1900 foi aprovado pelo Congresso Nacional e sancionado pelo presidente da República, Manoel Ferraz de Campos Salles, o decreto que tornou o diploma concedido pela Escola Politécnica de São Paulo reconhecido em todo o território nacional.
No campo da política, o grande desafio foi atrair os fazendeiros de café para o movimento republicano e ele teve sucesso, tendo em vista o grande número deles na Convenção de Itu, onde foram lacadas as bases do PRP e depois no processo que culminou com a Proclamação da República. No governo Floriano Peixoto, ao surgir os primeiros desencontros ele deixou os cargos administrativos para dedicar-se integralmente ao projeto da Politécnica.
Qual a importância de Paula Souza para o mundo acadêmico?
O seu exemplo de professor dedicado, a sua preocupação com o ensino gratuito e com a formação de cidadãos que “saibam executar e praticar”. Em um conhecido discurso de 1903, ele aconselhava aos formandos: “Não considereis o título que ora recebeis como um salvo conducto para vossos erros e descuidos; consequentemente procedeis sempre com toda probidade profissional”. Paula Souza dirigiu a Escola Politécnica por vinte e quatro anos. Ele morreu na madrugada de 13 de abril de 1917 preparando a aula que ministraria no dia seguinte.
No campo da História, qual a sua obra preferida de Paula Souza?
A República Federativa no Brasil, publicado em 1869. Nessa obra Paula Souza faz uma série de críticas à monarquia brasileira, no seu entender, a responsável pelo atraso do País, e apresenta o seu ponto de vista sobre as grandes questões da época, como a liberdade, escravidão, instituições políticas, separação entre igreja e Estado, cidadania, instrução pública e outros temas. Ele propõe soluções e apresenta ideias inspiradas nas suas observações da organização política dos Estados Unidos.
Uma curiosidade ituana sobre Antônio Francisco de Paula Souza
A antiga Rua Direita, no centro de Itu, recebeu a denominação de Rua Paula Souza em 1922, durante as comemorações do centenário da Independência, em homenagem ao conselheiro Francisco de Paula Souza e Mello. Passado algum tempo, o motivo da denominação foi completamente esquecido. Em diversas publicações, inclusive oficiais, a denominação de Paula Souza passou a ser atribuída ao engenheiro famoso, responsável por obras de saneamento e abastecimento de agua na cidade e pela reforma na Matriz de Nossa Senhora da Candelária, projeto que ele desenvolveu com o arquiteto Ramos de Azevedo. Mais recentemente o engano foi reconhecido.
Sobre os filhos de Paula Souza
Geraldo, o seu filho caçula, destacou-se na história paulista por sua atuação na saúde pública em São Paulo. Paula Souza casou-se na Europa com Ada Herweg. O casal teve sete filhos: Maria Raphaela, Virgínia de Paula Souza, Ada de Paula Souza, Antônio de Paula Souza, Elza de Paula Souza, Gertrudes de Paula Souza e Geraldo Horácio de Paula Souza.
Geraldo, (1889-1951), formado em Farmácia e Medicina, doutorou-se em Higiene e Saúde Publica nos Estados Unidos. Foi professor de Higiene na Faculdade de Medicina, diretor do Serviço Sanitário de São Paulo, diretor do Instituto de Higiene, participou da fundação da Organização Mundial de Saúde, do SESI e do SENAI.
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